quinta-feira, 20 de maio de 2010
terça-feira, 18 de maio de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Dica de videoclipes
meio-ambiente, biodiversidade, impacto ambiental, sustentabilidade, consumo
Banda - Música Nacionais:
Babado Novo - Garota Material
Cazuza - Ideologia
Gabriel o Pensador - Astronauta
Gabriel o Pensador - Lôra burra
Gabriel o Pensador - Retrato de um playboy (1 e 2)
Gabriel o Pensador - Até quando
Geraldo Vandré - Pra não dizer que não falei das flores
Legião Urbana - Geração coca-cola
Lulu Santos - Assim caminha a humanidade
Ratos de porão - Capitalismo
Rebitantes - Prisioneiros do capital
Seu Jorge - Burguesinha
Titãs - Flores
Titãs - Homem primata
Titãs - Planeta morto
Banda - Música Internacionais:
Abba - money money money
Acqua - Barbie Girl
Bad religion - New America
Hilary and Hayle Duff - Material girl
Madonna - Material girl
Papa Roach - Between Angels and insects
Pearl Jam - Do the evolution
Pink Floyd - Money
Radiohead - Fake Plastic Trees
Rage Against the Machine - Testify Music Video
The Police - Spirits in the material world
Alguém tem mais dicas?
Dica de filmes
Filmes que podem ser utilizados para trabalhar as temáticas:
meio-ambiente, biodiversidade, impacto ambiental, sustentabilidade, consumo
FICÇÕES:
1. Avatar – EUA – 2009 – Ficção científica – James Cameron – 162min.
Sinopse: No futuro, Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-fuzileiro naval paraplégico que é recrutado para viajar anos-luz até uma estação humana em Pandora, onde grandes empresas exploram um mineral raro que seria a chave para solucionar a crise energética da Terra. Como a atmosfera de Pandora é tóxica, foi criado o Programa Avatar, em que "drivers" humanos têm sua consciência projetada em um avatar, isto é, um corpo biológico controlado à distância e que consegue sobreviver naquele ar letal para humanos. Em sua nova forma, Jake consegue voltar a andar. Sua missão é se infiltrar no meio dos Na'vi, que se tornaram um grande osbtáculo à exploração do raro minério. Porém uma Na'vi chamada Neytiri salva a vida de Jake, e isso muda tudo. Ele é aceito pelo de Neytiri e aprende a se tornar um deles, à custa de inúmeros testes e aventuras.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=sa8NpSgnAH0
Sinopse: Um desenhista em crise criativa é pressionado por sua editora a entregar a história em quadrinhos que está desenvolvendo. Os personagens estão esquematizados, mas a história não evolui. A ação avança quando um cientista/professor inventa um reciclador de lixo, contrariando os interesses do malvado da história, Jordão, que cobra pela coleta do lixo na cidade. Ele e sua assistente, Gigi, partem para a vingança. Um dos personagens, Nerd 1, uma criança aluna do cientista, pede ajuda a um avatar que ela mesma criou e passou a chamar de “Eu”. Com a ajuda de dois catadores de lixo, Escova e Sabão, Nerd 1 convence o desenhista de que “Eu” é a heroína perfeita para a história. “Eu” procura um antigo amigo do professor para ajudá-los. Trata-se de Leonardo Del Vinte, um alquimista de quinhentos anos. A partir daí, o desenhista perde o controle da história e os personagens passam a agir por conta própria. Todos querem salvar o professor das garras de Jordão, impedir que a reciclagem acabe e salvar o meio ambiente da poluição do malvado.
Trailer: http://www.filmesdecinema.com.br/trailer-acasaverde-1021/
3. O dia em que a Terra parou – EUA - 2008 – Ficção Científica – Direção: Scott Derrickson – 103min.
Sinopse: Um alienígena, Klaatu (Keanu Reeves), chega à Terra acompanhado do robô Gort em missão de paz. Os dois tentam alertar os governantes do planeta sobre o perigo de viver em contínuo estado de guerra, o que pode causar sua destruição total. Mas, apesar das boas intenções, Klaatu é visto como inimigo.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=Jxs1dxhLIww
4. Wall-e – EUA - 2008 – Animação – Andrew Stanton – 105min.
Sinopse: Após entulhar a Terra de lixo e poluir a atmosfera com gases tóxicos, a humanidade deixou o planeta e passou a viver em uma gigantesca nave. O plano era que o retiro durasse alguns poucos anos, com robôs sendo deixados para limpar o planeta. Wall-E é o último destes robôs, que se mantém em funcionamento graças ao auto-conserto de suas peças. Sua vida consiste em compactar o lixo existente no planeta, que forma torres maiores que arranha-céus, e colecionar objetos curiosos que encontra ao realizar seu trabalho. Até que um dia surge repentinamente uma nave, que traz um novo e moderno robô: Eva. A princípio curioso, Wall-E logo se apaixona pela recém-chegada.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=q1Ssf25XAXg&feature=PlayList&p=67058CF26C33E9E4&playnext_from=PL&playnext=1&index=96
Sinopse: A era glacial está chegando ao fim e, com isso, surge em todo lugar gêiseres e verdadeiros parques aquáticos. O mamute Manfred (Diogo Vilela), o tigre Diego (Márcio Garcia) e o bicho-preguiça Sid (Tadeu Melo) logo descobrem que toneladas de gelo estão prestes a derreter, o que inundaria o vale em que vivem. Com isso, o trio de amigos precisa correr para avisar a todos do perigo e ainda encontrar um local em que não corram riscos.
6. Tainá 2 – A aventura continua – Brasil – 2005 – Infantil - Mauro Lima – 76min.
Sinopse: Uma jovem indiazinha chamada Tainá (Eunice Baía) precisa defender o meio ambiente dos bandidos e ao mesmo tempo tem que cuidar da pequena Catiti, de 6 anos de idade. Porém nem tudo da certo, por observar a corajosa Tainá, Catiti foge da aldeia a fim de imitá-la a proteger o meio ambiente.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=JxnHAA8m9eg
7. O dia depois de amanhã – EUA - 2004 – Ficção Científica – Roland Emmerich – 124 min.
Sinopse: Dennis Quaid é o climatologista Jack Hall que desenvolve a teoria que, com o aquecimento global, as calotas polares derreterão e alterarão o fluxo das correntes marítimas, principalmente aquelas que amenizam o clima no Hemisfério Norte. Seus esforços para convencer dirigentes mundiais são em vão e sua teoria vira realidade mais cedo do que se esperava: uma catátrofe meteorológica.
Trailer:http://www.youtube.com/watch?v=Z5Yag0VXugU
8. Terra tranqüila – Nova Zelândia - 1985 – Ficção científica Geoff Murphy – 91min.
Sinopse: A Terra Tranquila marca uma vertente mais intimista dos filmes apocalipticos. O filme remete-nos para o pior dos pesadelos: o Projecto FlashLight, de uso de energia nuclear correu mal e transformou a Terra num deserto de almas. Só Zack, um dos cientistas do projecto, sobreviveu, mas todo o mundo está silencioso e vazio. Uma impressionante e aterrorizadora ficção científica para uma realidade possível, filmado com rara sensibilidade.
Trailer:http://renatozr.blogspot.com/2009/03/terra-tranquila-quiet-earth-1985.html
9. Trilogia Mad Max – Austrália – 1979/1981/1985 – Ficção científica - George Miller
Sinopse: A disputa pelo petróleo acabou gerando uma guerra entre as potências mundiais de proporções catastróficas. As cidades entraram em colapso. O planeta se torna uma terra deserta e sem lei. Os remanescentes, desordeiros motorizados viajam sem controle em uma terra árida, buscando o mais escasso bem, a gasolina. Quem a possui tem o controle dessa terra devastada. Esta é a sociedade do futuro e em meio disso, vaga Max (Mel Gibson) um homem sem rumo, remoendo as dores do seu passado após perder sua família e o parceiro de policia.
Trailer:http://www.youtube.com/watch?v=xNPXtfTs_6w&feature=PlayList&p=14AACDD6E9D595D9&playnext_from=PL&playnext=1&index=84
Sinopse: Allie Fox parte com mulher e filhos para uma região ainda selvagem da América Central. Mas o que ele pensava ser uma vida paradisíaca se revela uma difícil batalha pela sobrevivência. Baseado no livro de Paul Theroux.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=-Hl4J2a4tBc
DOCUMENTÁRIOS
Sinopse: O documentário aborda os desastres naturais causados pela própria humanidade. Mostra como o ecossistema tem sido destruído e o que é possível fazer para reverter esse quadro. Entrevistas com mais de 50 renomados cientistas e líderes, como Stephen Hawking e o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev, ajudam a esclarecer essas importantes questões, assim como indicar alternativas possíveis à sustentabilidade.
Trailer:http://www.youtube.com/watch?v=TQipDQGAaA0
2. Terra – EUA – 2007 – Documentário – Alastair Fothergill e Mark Linfield (Walt Disney – DisneyNature) 90min.
Sinopse: Conta a história de três famílias de animais em uma viagem através de nosso planeta - os ursos polares, elefantes e baleias jubarte.
Trailer: http://www.disney.com.br/cinema/disneynature/terra/
3. O planeta branco – França/Canadá – 2006 – Documentário - Jean Lemire, Thierry Piantanida e Thierry Ragobert – 86min.
Sinopse: Um vasto panorama da região do Ártico, mostrando as diferenças na passagem provocadas pelas estações do ano. O filme registra a força e a habilidade dos animais do Pólo Norte em sua luta pela sobrevivência, e também sua vulnerabilidade diante das mudanças agressivas provocadas no meio-ambiente pelo fenômeno do aquecimento global.
Trailer:http://mais.uol.com.br/view/a56q6zv70hwb/o-planeta-branco-la-planete-blanche-04026AE48113C6?types=A&
4. Uma verdade inconveniente – EUA – 2006 – Documentário – Davis Guggenheim- 100 min.
Sinopse: Alerta sobre o aquecimento global e como esse fenômeno causado por nossas ações pode, numa escala curta de tempo, fazer ruir o planeta Terra.
Trailer:http://www.youtube.com/watch?v=Yh330_gkOsU
5. H2O – Água à venda – Alemanha – 2005 – Documentário - Leslie Franke e Hermann Lorenz – 58min.
Sinopse: Mostra, com as experiências inglesas em pano de fundo, como a privatização do ouro azul ocorre em diferentes cidades alemãs. As conseqüências são as mesmas em toda a parte: milhares de empregos exterminados, os custos foram reduzidos, aumento do desperdício, a qualidade da água piorou, os preços aumentaram exponencialmente. O lucro é o Deus na indústria da água. Mas há resistência.
Trailer: http://www.h20upforsale.com/site/film/trailer.html
Sinopse: Enfoca os grandes problemas ambientais motivados pelo crescimento desenfreado da pecuária. Aborda ainda as restrições e o sofrimento dos animais desde o nascimento até o abate.
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=zqgZ7YptBzg
7. Ilha das flores - Brasil – 1989 – Documentário – Jorge Furtado – 13 min.
Sinopse: Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho.
Filme: http://www.youtube.com/watch?v=KAzhAXjUG28
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Videoclipe, estética e linguagem: sua influência na sociedade contemporânea
Compactado do Original: http://www.iscafaculdades.com.br/nucom/PDF/ed12_artigo_juliano.pdf
O homem, a comunicação e a tecnologia
O ser humano, como ser social, teve que desenvolver suas habilidades de comunicação para se relacionar com seus semelhantes. Por comunicação se entende o processo onde há troca de informações entre sujeitos ou objetos, utilizando sistemas simbólicos como suporte para esse fim.
Pegue-se como exemplo duas pessoas conversando frente a frente, ou através de mímica, ou por intermédio de um programa de mensagens instantâneas como o MSN, entre uma infinidade de maneiras de se comunicar.
Comunicar-se é interagir e trocar informações. E o homem, no seu processo evolutivo, desenvolveu uma série de técnicas e tecnologias para aperfeiçoar sua comunicação. Escrita, música, desenho, telégrafo, telefone, televisão, internet, entre outros, foram algumas das formas do homem se comunicar ao longo da sua evolução. Tecnologias recentes foram aprimoradas, configurando a estética do moderno para o contemporâneo, com foco nas diferentes formas de expressão. Novas tecnologias, novas linguagens, formas de expressão com forte apelo visual e sonoro, foram criadas e entre elas está o videoclipe.
O videoclipe
Um filme curto, com os elementos música, letra e imagem interagindo para provocar a produção do sentido. O que é? É um videoclipe.
E, para que ele possua sentido é necessário respeitar certos aspectos. A montagem, o ritmo, os efeitos especiais (visuais e sonoros), a iconografia, os grafismos, e os movimentos de câmera, ao se convergirem, produzem a linguagem do videoclipe.
A palavra videoclipe é uma palavra inglesa introduzida no nosso vocabulário e designa um filme curto, em suporte digital. Devido ao predomínio quase total dos vídeos musicais e publicitários na produção mundial de vídeos curtos – e porque os vídeos publicitários têm uma designação própria – durante algum tempo o videoclipe quase foi sinônimo de vídeo musical. Mas com o aparecimento da Internet de banda larga e a difusão de vídeos através dela, a palavra videoclipe tem vindo a regressar em seu sentido original: filme curto.
Estrutura e produção do Videoclipe
A produção de um videoclipe profissional se assemelha muito a de um filme longo. São necessárias gruas, refletores e continuístas espalhados por todo o espaço. Assim como no cinema, também é necessária a confecção de um roteiro, que orienta os trabalhos a serem desenvolvidos.
Muitos diretores brasileiros conseguem produzir os videoclipes a orçamentos relativamente baixos. Um clipe custa
Masson salienta que no Brasil não existe a profissão de "diretor de videoclipe". Geralmente, os que se dedicam a este ramo são publicitários e que, muitas vezes, buscam uma espécie de vitrine para o seu trabalho, já que a atividade não proporciona muito lucro, mas tem boa visibilidade – principalmente por que o diretor tem seu nome creditado logo abaixo do nome da música (2006).
Para Thiago Soares, jornalista e professor universitário, para produzir um videoclipe é preciso, primeiramente, esquecer a idéia de que tudo precisa ser bonito e esteticamente bem feito. “O lance do videoclipe é a mistura de imagens e linguagens” (2006).
O videoclipe, antes de qualquer coisa, serve para materializar a música. É uma forma de fazer com que a mensagem seja transmitida através de imagem, o que muitas vezes ajuda no entendimento da mensagem. Por isso, não há a necessidade de se ter regras exatas para produzi-lo, basta ter uma câmera na mão, a música e uma boa idéia na cabeça.
Assim como nem sempre as pessoas interpretam um quadro ou um poema da mesma forma, nem sempre é possível fazer com que todos entendam a mensagem do vídeo ou da música. A criação e produção de um videoclipe também podem ser abstratas, como na maioria das formas de arte.
Foi-se o tempo em que os videoclipes se resumiam em um simples vídeo com a banda tocando ou o vocalista com um microfone na mão. Hoje em dia eles são mais elaborados, permitindo a comparação da produção de videoclipes com a produção de cinema. Pode-se, por exemplo, contar uma história através do videoclipe, ou seja, ao se utilizar a canção (onde está a narrativa) é possível trabalhar o produto como se fosse
fazer um filme. Isso implica na confecção do roteiro, no uso de atores, argumentos e uma série de recursos utilizados no cinema, antecessor do videoclipe.
O cinema
A busca humana por uma forma de registrar o movimento pode ser comprovada por indícios históricos, como o desenho e a pintura nas paredes das cavernas que representavam os aspectos dinâmicos da natureza e da vida humana – através das figuras havia uma história, uma narrativa.
Entre várias experiências como o jogo de sombras na China, a câmara escura e a lanterna mágica, que constituem os fundamentos da ciência óptica e, portanto, torna possível a realidade cinematográfica, ao longo do século XIX, foram inúmeras as tentativas humanas para registrar e captar as imagens da vida real.
Com o desenvolvimento técnico e industrial da fotografia, fotógrafos e cientistas se interessaram particularmente pela análise do movimento em sua progressão de tempo. Este estudo seria possível pela obtenção de imagens sucessivas do mesmo corpo, o que reproduziria o movimento, retendo dessa forma as ações.
Com a criação do cinematógrafo dos irmãos Lumière – Louis e Auguste, em 1895, o cinema veio à luz. Esses industriários franceses estavam interessados no estágio da síntese efetuada pelo projetor, pois era somente aí que se podia criar uma nova modalidade de espetáculo. Isso permitia que o movimento e o tempo real se projetassem nas telas, fazendo do cinema um espetáculo e um documento e testemunho da história.
Ao congelar instantes, mesmo que bastante próximos (destaca-se que o movimento é o que se dá entre esses instantes congelados), o cinema trabalha com a ilusão do movimento. Assim, a ilusão cinematográfica opera com um movimento abstrato, uniforme e impessoal. O cinema sugere que o movimento pode ser feito de instantes estáticos. Ele nos oferece uma “imagem-movimento”, ou seja, uma imagem em que os elementos variáveis interferem um nos outros, dando a impressão de que as imagens se movimentam, quando na verdade são apenas seqüências congeladas.
As primeiras projeções e suas leituras
No princípio do cinema, os filmes eram exibidos como curiosidades ou peças de entreato nos intervalos de apresentações ao vivo em circos, feiras ou carroças. Essa maneira de difundir a arte cinematográfica permaneceria viva em zonas suburbanas ou rurais, em pequenas cidades do interior e em países economicamente atrasados até os anos 60.
Nos grandes centros urbanos dos países industrializados, a história era diferente. As exibições de filmes se concentravam em casas de espetáculos de variedades, nas quais também se podia comer, beber e dançar – eram conhecidas por music-halls na Inglaterra, café-concerts na França e vaudevilles ou smoking concerts nos Estados Unidos.
O cinema não era uma atração exclusiva, nem mesmo a principal: era apenas uma atração entre tantas outras oferecidas nos vaudevilles. A própria duração dos filmes – que duravam alguns segundos e não mais que cinco minutos – impedia sessões exclusivas nos primeiros anos do cinema. O público desses locais se constituía principalmente pelos imigrantes e pelas camadas proletárias provenientes das industrias.
Entre 1895 até meados da primeira década do século XX, os filmes produzidos eram registros dos próprios números de vaudeville, ou então contos de fadas, pornografia, truques de ilusionismo. Os filmes produzidos na época eram classificados como “paisagens”, “notícias”, “tomadas de vaudeville”, “incidentes”, “quadros mágicos” e “teasers” (eufemismo para designar a pornografia).
Foram necessários ajustes ao longo de pelo menos duas décadas de história para criar uma linguagem específica para o cinema, a criação de filmes de longa duração, entre outros aperfeiçoamentos como o som e a cor.
Surgimento do Videoclipe e o videoclipe no Brasil
Com o desenvolvimento do cinema, foi possível realizar uma série de inovações. Dentro desse contexto surgiu o videoclipe – cujas raízes estão fincadas no cinema de vanguarda de 1920. Nessa época já se tentava articular uma montagem com música e efeitos para criar um novo tipo de narrativa, própria do meio audiovisual e livre da linearidade existentes na literatura e no teatro.
Em 1930 e
Apesar dos musicais da época terem uma “norma” de estabelecer uma sincronia entre letra, música e coreografia, a linguagem do videoclipe foi responsável por quebrar essa regra de sintonia, dando mais liberdade para a criação.
Novas estéticas e linguagens surgiram em 1950. Elas se originaram com as vanguardas da Nouvelle Vague francesa (Godard) e o Neo-realismo italiano (Rosselini), além do cinema do degelo soviético (Tarkovski).
Entre 1960 e
No Brasil, um dos principais representantes que auxiliou na videoarte “verdeamarela”, foi Arnaldo Antunes, poeta, músico e artista visual paulista.
Com a chegada da fita de vídeo nos anos 70 e do videocassete doméstico nos anos 80, foi possível a reprodução da experiência cinematográfica de forma íntima, residencial, privativa. Antes disso, as exibições só eram possíveis dentro de salas de exibição coletiva.
Todos esses processos foram importantes para aproximar as pessoas do que viria a ser uma linguagem jovial, atrativa e contemporânea: o videoclipe.
No ano de 1975, mais especificamente na Rede Globo, em seu programa Fantástico, surgia o primeiro clipe nacional produzido e transmitido para o Brasil de forma massiva: “América do Sul”, interpretada por Ney Matogrosso e dirigido por Nilton Travesso.
Até 1981, somente o Fantástico produzia e os exibia. Esses videoclipes eram relacionados com as músicas transmitidas nas novelas e se interligavam com os grandes artistas da época. A partir daquele ano, algumas produtoras independentes passaram a produzir videoclipes buscando se diferenciar do “Padrão Globo”, mas sem se distanciar muito dele.
Nessa mesma década surgiu na tv aberta diversos programas cujo foco era o videoclipe. Na extinta Rede Manchete era exibido o “FM-TV”. Na Record e na Gazeta eram transmitidos “Videorama” e “Clip Trip” respectivamente. Na TV Cultura era apresentado o “Som Pop”; no SBT Rio era exibido o “Realce”; na Bandeirantes o “Super Special” e na Globo, além do Fantástico, existia o “Clip Clip”.
Mas o que representou uma revolução no Brasil na questão dessa nova linguagem audiovisual, foi o surgimento da MTV brasileira, que cunhou um novo estilo para os adolescentes. Era a estética videoclipe interferindo nos costumes e hábitos nacionais.
Estética Videoclipe
A partir dos anos 80, os vídeos musicais que se desenvolveram apresentaram uma linguagem e uma estética própria, chamadas de “Estética Videoclipe”. Ela é caracterizada por uma montagem fragmentada e acelerada, com narrativa não linear, imagens curtas, justapostas e misturadas, variedade visual, riqueza de referências culturais e uma forte carga emocional nas imagens apresentadas. Todos esses elementos reunidos se transformavam num produto de impacto e de fácil absorção: o videoclipe.
O termo “Estética Videoclipe”, além de ser aplicado aos clipes musicais propriamente ditos, também se aplica a outras produções audiovisuais, que
acompanham valores da televisão musical, ilustrativa e sincronizada com sucessos da música pop. A mídia vanguardista desse seguimento é, sem dúvida, a MTV (Music Television).
Estética MTV
Nascia um fenômeno cultural no dia 1º de agosto de 1981: a MTV norteamericana (Music Television), que resultaria na criação de uma nova linguagem e estilo direcionada ao jovem. A MTV começou
cabo, tornou-se disponível para a maioria dos Estados Unidos na metade dos anos 80.
Por suas próprias produções e seleções de vídeos que fazia, difundiu e firmou novos gostos para as gerações seguintes. Diante disso, alguns autores, como o marxista estadunidense Fredric Jameson, se referem ao fenômeno como “Estética MTV”. Esta estética está fortemente ligada aos valores e às ideologias do fenômeno cultural conhecido como pós-modernidade.
No Brasil, a MTV nasceu no dia 20 de outubro de 1990. De acordo com o pesquisador Guilherme Bryan,“os videoclipes da MTV passaram a ditar o que era sucesso entre os jovens. Até os anos 80, o sucesso vinha das músicas das novelas. Já na década de 90 e hoje, se tornou possível fazer sucesso a partir de outro meio que não a Rede Globo, que é a MTV. Temos exemplos em bandas como Skank, Nação Zumbi, Planet Hemp, Pato Fu, CPM 22, Detonautas Roque Clube - grupos cujas histórias se confundem com a do videoclipe no Brasil e mais especificamente na MTV”.(apud Veríssimo, 2005)
Conforme o pesquisador, videoclipe e a MTV são essenciais para a compressão da geração dos anos 90 e da atual também. Eles representam a consolidação, no Brasil, da cultura rock’n’roll iniciada na década de 50 nos Estados Unidos.
Outro fator importante que o autor destaca é o potencial consumidor de uma nova classe: os jovens. Diante desse novo nicho, muitos produtos relacionados à estética difundida pelos videoclipes foram lançados no mercado. Entra nesse ponto a discussão sobre a indústria cultural.
Indústria Cultural e videoclipe
O fenômeno da indústria cultural – um produto da Revolução Industrial, capitalismo liberal, economia de mercado e sociedade de consumo – surge no cenário da produção cultural. A partir do século XX, os meios de comunicação de massa (como a TV e o rádio) deram as bases para a cultura de massa, que é produto da indústria cultural: a massificação da cultura, o fazer em série para grande número de pessoas.
O termo “indústria” se deve à racionalização das técnicas de distribuição, e não estritamente ao processo de produção, em que a cultura é consumida e comercializada como uma coisa qualquer. A reedificação, ou “coisificação” do homem – o valor absoluto das coisas, dos bens, acima de qualquer coisa – resulta na alienação, em que o ser humano se limita a um mero instrumento de trabalho e de consumo, ou seja, um objeto. E os jovens, dentro dessa ótica, passaram a receber passivamente uma mensagem divulgada pelos meios de comunicação através de uma linguagem jovial, atrativa e que representava um novo estilo: o estilo MTV.
O consumidor não precisa se dar ao trabalho de pensar: é só escolher. O sistema da indústria cultural reorienta as massas e não permite que ela saia de seu contexto, para tanto, os esquemas do comportamento são expostos incessantemente – e a massa absorve esses esquemas como que por osmose.
Portanto, o adolescente nesse contexto engoliria e reproduziria o que o meio propagasse, sem permitir uma crítica de si e da sociedade.
Os videoclipes lançam modas, sejam com fins artísticos ou comerciais, induzindo o expectador a se vestir e agir conforme sua banda preferida, a consumir os seus produtos e ter determinado estilo. Nessa ótica, poderia se afirmar que é o sistema capitalista comandando a cultura.
A influência do videoclipe
A partir dos anos 80 muitas músicas se tornaram conhecidas também em função de seus videoclipes. É difícil imaginar a música “Segredos”, do Frejat, por exemplo, sem lembrar da animação que a acompanhou. Existem muitos outros exemplos como este. Além disso, o videoclipe também popularizou formas de comportamento, desde o modo de se vestir até a maneira de se gesticular ou dançar. Imagine o que seria de Madonna e Michael Jackson sem seus respectivos videoclipes. Por isso, pode-se dizer que os videoclipes são excelentes meios para os jovens conhecerem melhor o que pensam, como se vestem e de que maneira se comportam os seus ídolos musicais.
A MTV americana ainda se constitui da exibição de videoclipes, mas sem a mesma ousadia de antes. Hoje, os clipes mais criativos, por exemplo, estão em sites como o YouTube.
Videoclipe e sua utilização na propaganda
Com a criação da MTV brasileira, abriu-se um espaço de programação dedicada a videoclipes. No começo, a MTV estava associada ao incentivo à criação de ídolos fugazes e à cultura rock. A partir da década de 90, ela modificou seu papel e começou a lançar os principais álbuns fonográficos brasileiros.
É também nessa época que a publicidade se inspira no videoclipe para divulgar produtos. Exemplo disso é a campanha da Rider, que se alimentou no gênero videoclipe para realizar suas produções.
A linguagem publicitária ia além de uma simples propaganda de chinelos. Ela foi capaz de criar uma esfera de consumo muito mais abrangente e sedutora, veiculada de uma forma atrativa e jovem. O uso do sentimento – sendo esse mais importante que a narrativa – e a utilização do formato música são características do estilo MTV. Diante dessa ótica e inspirada nesse molde, a Rider segue essa proposta em seus comerciais. As regravações trazem sempre um tom pop – vinculado ao público jovem, ao universo videoclipe e interpretadas por uma banda ou cantor que fazem sucesso no “momento”.
A música não faz menção aos chinelos, apenas se utiliza de um sentimento que é exaltado através da veiculação da imagem em sincronia com a música. Essa dose exaltada de sentimentos consegue cativar o telespectador e, portanto, atingir seu objetivo: vender uma imagem de produto interessante, atrativo e jovial.
Videoclipe como produto comercial
O videoclipe, inserido numa cultura de massa, passou a ter um grande valor e a ser utilizado como estratégia de marketing. Para que isso fosse possível ele foi transformado numa peça promocional com a função de disseminar a canção-título e promover a banda, em outras palavras: vender CDs, DVDs e outros produtos vinculados a banda.
Atualmente os videoclipes estão atrelados com as novas tecnologias. Muitas vezes eles vêm junto ao CD como faixa multimídia (enhanced CD), são exibidos na Internet (sites como www.youtube.com) e também existem coletâneas de alguns artistas em DVD que reúnem todos os videoclipes de uma banda ou de um cantor.
O objetivo é bem claro: promover a música. Mas, ainda de acordo com Bryan, não justifica dizer que os videoclipes são um produto ruim só por terem caráter
comercial. O bom videoclipe é aquele que consegue fazer com que a canção fique mais interessante e que leve o telespectador a se interessar pelo CD. Afinal, desde que existe a tal “indústria cultural”, o que não é comercial?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mais do que a junção de imagem, música e letra, o videoclipe representou uma nova forma de linguagem. Conseguiu, por meio de uma linguagem jovial e atrativa, influenciar toda uma geração. Ele também é responsável pela movimentação financeira no que diz respeito à produção cultural pós-moderna. Esse mecanismo audiovisual influencia e direciona pessoas no modo de consumir, de se vestir, agir, e ter seu próprio estilo. É um meio pelo qual pessoas, principalmente os jovens, se identificam e buscam uma forma de se padronizar conforme o grupo que convivem.
Mas infelizmente, apesar do videoclipe ter forte influência na sociedade, ele é um gênero pouco estudado de acordo com o pesquisador Guilherme Bryan. Há pouca pesquisa em torno da produção e a grande dificuldade em encontrar dados sobre os videoclipes antigos.
“Para se ter uma idéia, quem foi consultado na MTV sequer sabe o diretor do primeiro videoclipe deles, Garota de Ipanema" (interpretado por Marina Lima). Tudo isso está influenciando a vida dos jovens, mas não se tem o cuidado de pesquisar e arquivar esses documentos. É um assunto esquecido quando se pensa em produção audiovisual brasileira”. (BRYAN, 2006)
A linguagem ou estética do videoclipe apresenta-se como uma forma atrativa e interessante de divulgar informações. Através da junção de imagens, sons e construções narrativas é possível, por meio dessa linguagem, fazer com que os estudantes de
comunicação social possam explorar novas formas de transmitir informações e dados de maneira a atingir adequadamente o público jovem, por exemplo.
Com o advento das tecnologias, principalmente a de sites de difusão de vídeos como Youtube, abre-se um leque muito grande para a experimentação e realização de trabalhos com essa linguagem.
Diante desse contexto, o videoclipe dá mostras que sua influência é demasiada grande na sociedade contemporânea – o que reforça a idéia de que ele deve ser usado como difusor cultural e informativo.
A linguagem do videoclipe
Guilherme Bryan, especialista no tema, fala sobre a importância do videoclipe
Por Marcus Tavares
Com a recente morte de Michael Jackson, vários de seus videoclipes voltaram às paradas de sucesso. Thriller, o mais famoso de todos os tempos, foi resgatado, assim como Black or White, Bad e They Don’t Care About Us. Trabalhos ricos em produção e conteúdo. O astro pop revolucionou a conjugação entre música e cinema. Segundo o jornalista e escritor Guilherme Bryan, o cantor mostrou que valia a pena investir na produção, contratando grandes profissionais da indústria de mídia. A fórmula deu certo.
Sucesso entre jovens, os videoclipes, na verdade, conquistaram o mercado mundial com o surgimento da Music Television, a MTV. “No Brasil, localizo três fases: os videoclipes do programa Fantástico, da TV Globo; os videoclipes do videomakers com suas produtoras; e a fase posterior ao surgimento da MTV Brasil”, conta Bryan, autor do livro Quem tem um sonho não dança – cultura jovem brasileira dos anos 80.
Foi com o objetivo de conhecer um pouco mais sobre os videoclipes, sua história e influência, que a revistapontocom resolveu entrevistar Bryan, especialista no assunto e doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). O título de sua tese é A autoria no videoclipe brasileiro.
Acompanhe:
revistapontocom - Michael Jackson e videoclipe: o que isso tem a ver?
Guilherme Bryan - O Michael Jackson revolucionou os videoclipes e fez deles algo realmente fundamental não só para a divulgação de uma canção e seu disco, mas também de um estilo, postura e modo de comportamento. Além disso, foi o primeiro artista negro a ser exibido no horário nobre da MTV. Com Thriller, ele demonstrou que valia a pena investir muito e contratar grandes profissionais para realizar videoclipes. Em Black or White, o diretor John Landis consagrou a técnica do morphing, em que rostos se transformam em outros. Em Bad, o diretor Martin Scorsese realizou uma espécie de West Side Story dos anos 80. Isso sem esquecer, é claro, que Spike Lee filmou Michael Jackson no Morro Dona Marta, no Rio, e no Pelourinho, em Salvador, com o Olodum, para o clipe They Don’t Care About Us.
revistapontocom - Como você definiria a estética do videoclipe?
Guilherme Bryan - Sinceramente, não sei se essa estética realmente existe. Acho que cada videoclipe possui a sua própria estética. De maneira mais ampla, é possível dizer que o videoclipe é um gênero audiovisual relativamente curto - dura, em média, de 2 a 3 minutos - e gira em torno de uma única canção específica. Ou seja, são criadas imagens para ilustrar uma única canção. Geralmente, nos videoclipes, os cortes são secos e muitos. Possui o que se denomina como “edição picotada”, que, posteriormente, viria a influenciar o cinema, a publicidade e outros gêneros televisivos.
revistapontocom - Esse formato ainda é uma característica das produções atuais?
Guilherme Bryan - O videoclipe mostrou-se, ao longo dos anos, ser o gênero que melhor se adapta aos diferentes espaços de divulgação, seja na televisão, no cinema, no telefone celular e na internet, por ser relativamente curto e encantar em poucos segundos. Ou seja, é possível ver um videoclipe em qualquer lugar sem que isso implique em muita perda de qualidade. Por outro lado, imagine ver um filme de longa-metragem no telefone celular. É praticamente impossível.
revistapontocom - A história do videoclipe pode ser dividida em etapas?
Guilherme Bryan - A história do videoclipe mundial com certeza se divide em antes e depois do surgimento da MTV, em 1981, pois ela se tornou o espaço por excelência para exibição dele. Outra etapa importante aconteceu no início dos anos 90, com a entrada em cena de diretores que fizeram do videoclipe um excelente espaço para experimentações, radicalizando nessas experiências mais do que os diretores anteriores. Esse é o caso de Michel Gondry, Spike Jonze, David Cunningham e Valerie Faries e Jonathan Dayton. Outra mudança ocorreu na metade dessa década, quando o videoclipe passou a ser realizado com orçamentos menores, destinado à exibição principalmente pela internet. No Brasil, localizo três fases: os videoclipes do programa Fantástico, da TV Globo; os videoclipes do videomakers com suas produtoras; e a fase posterior ao surgimento da MTV Brasil.
revistapontocom - O videoclipe ainda exerce influencia sobre os jovens?
Guilherme Bryan - O videoclipe sempre influenciou e acredito que continuará influenciando os jovens do mundo todo, pois eles podem se identificar com o estilo de um determinado artista ali, seja pela indumentária utilizada, seja pelos gestuais.
revistapontocom - Qual é a função dos videoclipes?
Guilherme Bryan - Os videoclipes continuam com a mesma função. Eles possuem, em si, duas vertentes complementares: a vertente promocional, que visa a divulgar uma canção e seu artista para atrair mais compradores para o disco do qual ele faz parte; e a vertente artística, que serve de espaço de experimentação para realizadores de audiovisuais.
revistapontocom - A cultura digital modificou a produção dos videoclipes?
Guilherme Bryan - A cultura digital revolucionou toda a produção audiovisual e, portanto, também o videoclipe, a partir do momento em que modificou completamente a maneira de se realizar, principalmente na edição, esse tipo de produção.
revistapontocom - Você arriscaria alguma projeção dos videoclipes para daqui a alguns anos?
Guilherme Bryan - Acredito que cada vez mais os videoclipes serão exibidos na televisão, no celular, na internet etc. Acho que ele continuará influenciando o comportamento dos jovens no mundo todo.
Fonte: http://www.revistapontocom.org.br/edicoes-anteriores-conversa-com/a-linguagem-do-videoclipe
sexta-feira, 23 de abril de 2010
AVATAR - Admirável mundo novo
Certa vez, alguém perguntou a Cecil B. DeMille: "Se o senhor fosse Deus...". "Como assim, se eu fosse?", interrompeu DeMille. O diretor de Os Dez Mandamentos era um megalomaníaco famoso, mas nem de longe o único em sua categoria. Quase todo cineasta, confesse ou não, tem um complexo de Deus. Os que criam pequenos mundos e decidem o destino de pequenos personagens o têm. Os que criam grandes mundos e os povoam, batizam suas criaturas e dão a elas uma história costumam achar que não se trata de complexo, mas de fato objetivo. Entre esses, James Cameron é o deus dos deuses – por determinação própria e também porque é o recordista aparentemente imbatível de bilheteria (1,8 bilhão de dólares por Titanic), e em Hollywood isso basta para autenticar a natureza divina. Cameron, porém, é um Deus de Velho Testamento, colérico e implacável, e ainda mais duro que o original, já que não quer saber de descansar no sétimo dia nem deixar que os outros descansem. Há quatro anos, ele comanda com raios e vaticínios – além da promessa de vida eterna nos créditos de um filme seu – uma equipe gigantesca, na missão de criar mais um mundo: o mundo luxuriante e vertiginosamente tridimensional de Avatar (Estados Unidos, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira.
Em Avatar, um fuzileiro naval paraplégico, Jake Sully (Sam Worthington), é enviado ao planeta Pandora para uma missão especial: seu código genético será combinado ao dos habitantes locais, os Na’vi. O ar de Pandora é tóxico para o organismo humano. Mas, realocado nesse corpo híbrido, Jake poderá explorar livremente – e discretamente – o território. A colônia de terráqueos instalada ali quer garimpar as reservas de um minério valioso, e os Na’vi, que eles consideram um povo primitivo, estão em seu caminho. Porém, mal se vê livre para andar pelas florestas fantasmagóricas de Pandora em seu corpo de 3 metros de altura, pele azulada e luminescente e feições felinas – o aspecto dos Na’vi –, Jake se apaixona por uma nativa, Neytiri (Zoe Saldana), e começa a se enamorar do inimigo. Todos os traços comuns à obra de Cameron confluem aqui: a paixão por personagens femininas fortes; a história de amor meio kitsch, mas sincera; e a compreensão superlativa da relação conflituosa que o homem desfruta com o mundo físico e com a tecnologia que cria para mediar esse relacionamento. Acima de tudo, Avatar põe em relevo, mais ainda do que O Exterminador do Futuro, O Segredo do Abismo ou Titanic – todos paradigmas de pioneirismo e também de mania de grandeza –, o espírito irrefreável de desafio com que o diretor se joga em seus projetos.
Segundo seu próprio criador, Avatar é o que de mais complicado já se tentou fazer no cinema. Desconte-se a queda de Cameron para o exagero – e a afirmação continua valendo. Várias das tecnologias empregadas pelo diretor foram concebidas especialmente para o filme, como o monitor virtual, que lhe conferiu liberdade de ação inimaginável. Outras técnicas já haviam sido usadas com imenso sucesso, como a "captura de atuação" com que a Weta, a empresa de efeitos de Peter Jackson, desenvolveu o Gollum de O Senhor dos Anéis e o gorila de King Kong. Em Avatar, foi a própria Weta que deu o sopro de vida aos Na’vi – mas refinou seus programas até o ponto em que o cérebro deixa de distinguir o que é real e o que só existe no computador. Todo o empuxo de Cameron tinha uma única finalidade: propiciar ao espectador uma experiência de imersão total em um filme em 3D. VEJA assistiu à sessão para a imprensa de Los Angeles e constatou que essa imersão é de fato de uma profundidade sem precedentes – algo como ser lançado em um mundo novo tão palpável que se tem a ilusão de ter memórias dele.
De acordo com Jeffrey Katzenberg, sócio do estúdio DreamWorks e um dos revitalizadores da animação, a indústria de cinema é uma até o dia 17 – e será outra no dia 18, quando o filme começa a ser exibido. "O cinema teve apenas duas revoluções fundamentais: a do som e a da cor. Avatar vai liderar a terceira – a do 3D", disse Katzenberg. Nos últimos dois anos, o 3D vem ganhando terreno a passos largos, sobretudo nos desenhos animados, mas também em filmes com atores e ação reais, o live action. Restam dúvidas, entretanto, se ele não é meramente um truque de momento para reter o público em sua migração da sala de exibição para o DVD. Tudo indica que Avatar vai fulminar essas dúvidas. Vai, na verdade, instituir um novo padrão. Da mesma maneira que aconteceu com o advento da cor, à medida que a tecnologia se aperfeiçoa e seus custos caem, também o 2D deverá virar relíquia, é no que acredita Cameron – além de outros entusiastas como Steven Spielberg, Ridley Scott e Peter Jackson. "Creio que ele tem razão", disse ao jornal The Guardian o diretor do Conselho de Cinema do Reino Unido, Peter Buckingham. "Até porque o 3D é o parâmetro natural da visão humana. Em, digamos, vinte anos, o 2D só será usado por razões artísticas específicas – da mesma forma que hoje Woody Allen, por exemplo, às vezes filma em preto e branco." O único obstáculo, claro, é que o 3D sempre vai exigir o uso de óculos especiais no cinema – ainda que os de hoje sejam oticamente confortáveis e até bonitos, e não fajutos como aqueles de papelão que se usavam nos anos 50.
Há doze anos, desde Titanic, James Cameron não lança um filme. Toda a sua reputação está investida em Avatar – e não só ela. Cameron foi o primeiro a quebrar a barreira dos 100 milhões de dólares de orçamento, com O Exterminador do Futuro 2. Foi o primeiro também a romper a barreira dos 200 milhões, com Titanic, que só não teve a produção suspensa porque o diretor abriu mão de sua remuneração (o estúdio depois a restaurou) e porque está para nascer o executivo capaz de enfrentar sua ferocidade. "Diga a ele que ele está sendo ****, e que se ele parar de se debater vai doer menos", foi o recado que mandou a um chefão de estúdio que reclamou de seus atrasos. Desta vez, a versão oficial coloca o orçamento de Avatar em 237 milhões de dólares – menos que o de Homem-Aranha 3, que custou 258 milhões. Mas o jornal Los Angeles Times, que tem uma excelente cobertura do setor, crava as despesas de produção em 310 milhões. O que daria a Cameron a honra de ter abatido também essa terceira marca. Somados os gastos de distribuição e marketing, a fatura bate em 500 milhões. Para o diretor, porém, o que Avatar representa não se conta em dólares. "Se você estabelece metas ridiculamente altas e falha, você terá falhado muito acima do que os outros consideram sucesso", postula ele, na sua típica lógica de conjugação de opostos.
Cameron conta com um núcleo de seguidores fiéis que não desistem dele, apesar dos seus parâmetros de excelência inatingíveis e da maneira tirânica com que os cobra (Cameron, hoje com 55 anos, diz ter melhorado; algumas das pessoas à sua volta afirmam que a diferença é bem sutil). Mas há pouca gente de colarinho branco nesse grupo. Na maior parte, ele é formado pelos que o diretor considera seus verdadeiros semelhantes: seus técnicos, que às vezes chegam perto de arriscar a vida para cumprir suas ordens. Como nas filmagens de O Segredo do Abismo, em que equipe e elenco tiveram de se diplomar em mergulho (Cameron é um mergulhador fanático, capaz de descer mais fundo em mergulho livre do que alguns profissionais o fazem em mergulho assistido) para passar dez horas por dia, durante meses, submersos em um tanque gélido. As bolinhas de polipropileno que flutuavam na superfície para diminuir a refração da luz entravam em ouvidos, narizes e pulmões, provocando infecções a rodo. O cloro era tanto que os cabelos ficavam brancos e tão frágeis que, ao congelarem em contato com o ar, se quebravam. Foram semanas de infelicidade. Mas resultaram em um filme que, embora recebido com reservas em 1989, impressiona mais a cada revisão.
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