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domingo, 8 de outubro de 2017

"Heidi" de Alain Gsponer (2015)


Olá, pessoal!


Para este mês de outubro, que tradicionalmente homenageia as crianças e também os professores, eu indico este filme MARAVILHOSO, que está disponível no Netflix.

Em geral, o filme fala de essência humana, educação, propósito, amizade, família, infância, temas tão importantes em nossas vidas.

Baseado no romance homônimo de Johanna Spyri, e com diversas adaptações fílmicas bem famosas, o filme conta a história da infância da orfá Heidi, ‘espírito-livre’ por natureza, que primeiramente constrói uma forte relação com o avô, residente nos belos Alpes Suíços e posteriormente é enviada para a cidade, para receber uma educação de alta classe e principalmente servir de companhia para uma garota paraplégica, a Klara.


Heide tem a personalidade forte e um bom coração e a vida lhe reservará surpresas para encontrar sua própria essência e propósito!

No filme, temos diversos papéis de educadores, sendo professores ou não. Há aqueles que desencorajam, punem e reprimem e há os que libertam, exercem a empatia e estimulam a criança positivamente a aprender e superar as próprias limitações. Uma lição importante em nossos papéis de pais! Estamos encorajando ou desencorajando nossos filhos? Estamos respeitando sua essência ou condicionado aos padrões já impostos pela sociedade? Nossos filhos são ou estão felizes?


Uma história infantil que nos toca na alma, pois sabemos bem que adoecemos gravemente quando rejeitamos a nossa essência e felicidade interior.

Separem os lencinhos e assistam com ou sem as crianças!!
É um filme para todos os públicos mesmo!

Boa sessão e até a próxima!!

quinta-feira, 15 de março de 2012

"Esboços de Frank Gehry" de Sydney Pollack 2005


Este documentário foi exibido recentemente na semana de atividades do PPGE - UFSC , com a presença da Profª Dra. Marisa Vorraber Costa para discutir a relação 'cultura e pedagogia' e o papel do pesquisador.

Frank Gehry é um arquiteto contemporâneo, que escolheu o amigo Pollack, que não entendia nada de arquitetura e documentário, para contar um pouco sobre a vida e trabalho desse artista fantástico que não entendia nada de cinema. 

De forma clássica, Pollack consegue reunir em imagens, depoimentos, entrevistas, montagem e uma divertida trilha sonora, um pouco da vida de Gehry e seu processo (fantástico) de criação.

Museu Guggenheim Bilbao, em Bilbao, Espanha

A importância de Gehry para esse período de reflexão sobre a pós-modernidade, está na relação das suas obras arquitetônicas com as tecnologias atuais, numa espécie de simbiose beleza&tecnologia, onde elas só poderiam existir através do computador e seus cálculos precisos. Gehry confronta as regras e 'verdades absolutas' da arquitetura com suas criações exóticas, caóticas, orgânicas, narrativas, que desafiam as leis da física.

A partir do documentário, podemos perceber que Gehry sempre teve uma relação próxima com a arte já na infância, onde sua avó sentava com ele e passavam tardes criando cidades e construções com simples blocos de madeira. Foi essa experiência marcante que influenciou sua escolha profissional. De alguma maneira, quando jovem, ao pensar sobre o que queria fazer da vida, ele se lembrava dos blocos de madeira e das tardes com a avó.

Ele também gostava de desenhar com seu pai e um desses desenhos foi elogiado pelo professor e valorizado pela mãe, que acreditavam que um dia ele seria um grande 'arquiteto'. Dito e feito!

E antes de fazer arquitetura, Gehry fez um curso de cerâmica e já nessa experiência se divertia com as formas imprevisíveis que suas criações em argila ganhavam ao sairem do forno. "Uau! Que beleza! Eu fiz isso?!" 
 

Gehry sempre teve uma relação de medo e fascínio por suas obras. São como filhos, que nascem para o mundo e tem vida própria. Aqui lembrei de Barthes e seu texto "A morte do autor", pois nossas criações deixam de ser nossa ao serem compartilhadas com o 'mundo'. Ganham vida e oferecem múltiplas possibilidades de relações e conexões.

Marisa relacionou este medo e fascínio com as pesquisas que fazemos na pós-graduação. Diz que nós 'inventamos e criamos' os problemas que tratamos em nossos trabalhos, eles não existem e apenas os pescamos, mas são criados por nós. Talvez seria melhor dizer que os identificamos num mundo posto, onde estabelecemos relações e conexões. Marisa diz que pesquisa requer paixão, fascínio pelo processo. Somos apaixonados por ela, ou não conseguimos seguir adiante. "Sem tesão, não há solução". 

Somos pesquisadores-artistas, como Gehry, que trabalha com paixão, teme a rejeição, mas segue em frente, diante de críticas, desafios e problemas. 

Assim como Gehry, nós pesquisadores também nos sentimos confusos, perdidos, com medo de não saber o que fazer e por onde começar. O arquiteto diz que isso é apavorante, mas que criar é assumir riscos.

Em certo momento do documentário observamos Gehry e sua equipe criarem uma nova obra. E para ele há o momento de escuta, de silêncio, de observar e buscar em palavras suas inquietações. "Não sei ainda do que não gosto, mas não gosto."

Em relação a sua profissão, Gehry acredita que se uma pessoa tem uma ideia, porque não experimentar? Ele vive o momento, aproveita as ideias dos outros, relaciona qualquer coisa (moda, pintura, escultura, objeto, desejo, história) e isso o inspira a criar algo novo. Ele diz que é quase mágico e isso me fez pensar sobre o 'punctum' de Barthes. O importante exercício de refletir sobre o que nos toca em relação ao outro, seja pessoa, objeto, artefato, som, filme, etc.Gehry diz que 'todo lugar pode servir de inspiração'.


Gehry fala muito sobre a diferença de ser jovem, cheio de sonhos e anseios, e da experiência de envelhecer e perceber que o que fazemos não se reflete no agora e que o trabalho em equipe é de extrema importância. Ele diz que a perfeição não existe ou não pode ser alcançada. Com o tempo, a frustração diminui e relaxar diante da imperfeição, fica mais fácil.

Em sua arquitetura, Gehry procura respeitar o outro e talvez por isso crie coisas tão caóticas. Suas distorções possibilitam que um prédio velho não seja ofuscado, que a vista do mar não seja exclusiva, que as regras possam ser quebradas e as pessoas possam interagir com suas criações, conectarem-se com elas.

Em certo momento do filme compreendemos, assim como diz Tom Wolfe (A palavra pintada), que diante da beleza e inovação de suas obras, teóricos se apressaram em conceituá-las e classificá-las para que pudessem ter o estatuto de arte.

Já outros críticos questionam as criações de Gehry, enquanto espetáculo e marca. Seriam arte mesmo?!

Gehry é um artista do seu tempo, que imprime em suas obras, incluindo as novas tecnologias, o contexto em que vive. Aqui é importante pensar que a tecnologia não cria, mas projeta, permite, possibilita superar. Esta deve ser a postura da educação diante dessa Era das novas tecnologias. Aproveitá-la como uma ponte, como ferramenta fundamental da expressão e criatividade humanas!

Para ele, a satisfação não está no resultado, mas no processo, na possibilidade do esboço. Do fim como um novo começo. 

Marisa diz que em relação à pesquisa, quando terminamos um trabalho é o melhor momento de publicarmos artigos, revisitá-lo. É o momento de maior inspiração.

Ela também acrescenta que todo risco exige coragem, determinação, disposição, pois não é fácil saltar fora da ordem, duvidar, dobrar e subverter as regras. Gehry e nós, assumimos os riscos, mas não sem medos!

Num diálogo de Gehry e Pollack, podemos refletir sobre a relação comercial e artística de confronto dos artefatos e criações humanas, ou ainda, da relação do trabalho com a necessidade financeira e necessidade da expressão da arte, onde os dois reconhecem ser possível encontrar pequenos espaços, seja na arquitetura ou no cinema, seja na Academia, de dizer algo novo, citando algo velho, de mostrar que há outras coisas além das que já se conhece. 

Para que nossas crianças possam produzir arte, buscando articular realização profissional e criatividade, é preciso resgatar as vivências familiares, tão esvaziadas pelas mídias, segundo Marisa. Ao invés de 'medicar', canalizar sua energia excessiva para a criação, onde as novas tecnologias (tv, computador, internet), artefatos do nosso tempo, possam servir de ferramenta e potência de superação.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

"Super 8" de J.J. Abrams 2011


Se "A invenção de Hugo Cabret" de Martin Scorsese (2012) é uma homenagem à invenção do cinema, "Super 8" é uma homenagem a grande brincadeira de fazer filmes, quando se é jovem, cheio de sonhos e imaginação!!

J.J. Abrams (criador do fenômeno LOST) se uniu a Steven Spielberg (produtor do filme) para retratar parte da sua vida adolescente na década de 70, quando realizava curtas em Super 8 com seus amigos, e onde iniciou sua carreira no cinema, já como editor, aos 14 anos, após ganhar um pequeno prêmio de curtas Super 8, sendo convidado por Spielberg para editar curtas que ele também havia realizado na adolescência.


Abrams uniu a vontade de falar de si no passado, através de um grupo de adolescentes criativos e realizadores de vídeos 'amadores'; com um empolgante e 'sinistro' acidente de trem, envolto num ar de mistério adolescente; além de seres estranhos e adultos-vilões para criar "Super 8", que conta com um elenco mirim inédito (a maioria nunca havia atuado). Impossível não lembrar de "Goonies" e as peripécias adolescentes dos personagens em nossa doce infância da década de 80 e 90!!  

 Personagens de "Goonies"                    Personagens de "Super 8"  

O bacana do filme é entender como funciona a mente criativa de uma criança e adolescente, a partir do envolvimento entre os personagens, além da organização e disciplina que apresentam na hora de expressar sua criatividade. Nos créditos finais podemos ver o curta "The case", com ar bem 'artesanal', realizado por Abrams, buscando a expressividade infantil de décadas atrás. 

Seja Spielberg, Abrams ou meus alunos, a ficção científica é sempre o tema principal, onde maquiagens elaboradas e cenas de ação não poderiam faltar! 

 Fotos de alunos da Aula de Cinema em 2009 

Considerando que a criança aprende muitas coisas por imitação, é natural que na hora de se expressar em vídeos, reproduza clichês e histórias hollywoodianas fantásticas (ação&romance), já que é o que realmente as encanta e empolga, quando o pensamento abstrato e a subjetividade ainda estão se desenvolvendo.

Enfim, é um filme bacana para discutir a temática educação & cinema, justamente tema da minha pesquisa de mestrado ainda em andamento. O quê, porquê e como ensinar cinema na escola?!
 
Como professora posso afirmar que trabalhar com cinema em aula envolve organização, disciplina, interesse, criatividade, expressividade, subjetividade, dinâmica, trabalho em equipe, distribuição de funções, produção de materiais e cenários, criação de roteiro, etc e tal. Mas pra quem não é professor, o filme já dá uma boa noção do que seria fazer filmes com poucos recursos e muita vontade, começo de todo grande cineasta!! (Menos é mais!)

Ninguém nasce pronto! Aprender é um processo a longo prazo e quanto mais experimentamos, mais aprendizado nos é oportunizado! =)

Obs.: Recomendo os extras do DVD (making of, entrevistas, etc) e ouvido atento para a trilha sonora sombria, já presente no seriado 'Lost', criação de J.J. Abrams.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"A invenção de Hugo Cabret" de Martin Scorsese 2012

 

Ontem, quinta-feira, dia 23 de fevereiro de 2012, finalmente assisti a mais recente obra do cineasta norte-americano Martin Scorsese, consagrado por seus bons filmes de ação e suspense adulto.

Se me perguntassem qual meu filme favorito antes dessa fantástica experiência, não teria uma resposta precisa, mas hoje posso afimar com absoluta certeza que meu filme favorito é "A invenção de Hugo Cabret". Não pela história em si, mas porque é o primeiro filme que conheço (se não for o único que existe) que verdadeiramente homenageia a invenção do cinema, o pioneiro Georges Méliès, meu grande ídolo e uma parte da história do cinema, conhecida teoricamente como 'O primeiro Cinema', ainda mudo, preto&branco, de curta duração e que transitava entre 'realidade e ficção' (Irmãos Lumière e Georges Méliès) num esquema de 'cinema de atrações'.

Ainda esta semana, um dos meus primeiros alunos de cinema, o talentoso Luís Gustavo, procurou-me no facebook empolgado, contando como se lembrou das nossas aulas ao ver este filme. E do início ao fim da sessão, eu chorei de emoção, fiquei arrepiada e minhas lágrimas se misturavam ao meu sorriso, porque eu estava vendo em imagens parte do que havia estudado na faculdade, tudo que havia estudado para dar aula, que havia narrado e compartilhado com meus alunos da Escola da Ilha e pessoas anônimas que passaram pelos minicursos da SEPEX da UFSC, além do meu marido e amigos, que tenho certeza que lembrarão de mim e da minha empolgação ao falar como o cinema surgiu e como Méliès foi pioneiro em transformar sonhos em filmes!!! Meu marido disse 'O filme me fez lembrar de você e das coisas que você sempre fala do cinema!'.

Baseado no livro infanto-juvenil "A invenção de Hugo Cabret", do autor premiado Brian Selznick, o filme de Scorsese une duas histórias, do personagem fictício Hugo e do personagem da vida real Méliès para fazer uma grande homenagem à invenção do cinema e tornar seu filme uma obra essencial e obrigatória para qualquer estudante de cinema e cinéfilo, interessado em compreender o surgimento do cinema e seus primeiros desdobramentos. É um grande presente à História do Cinema e uma justa homenagem à Georges Méliès, pai dos 'efeitos especiais' e cinema de ficção, sempre beirando ao fantástico em suas histórias lúdicas.


Além de tudo isso, o primeiro filme em 3D de Scorsese confirma o terceiro grande marco da história do cinema, após o som e a cor, pois assim como em outras épocas, ainda há muita resistência (como Chaplin resistiu ao som), porém quando grandes cineastas aderem à uma inovação tecnológica e a exploraram ao máximo, será muito difícil reverter esta nova tendência do cinema. Estamos vivendo o 'futuro' e em breve fazer filmes em 2D será pura escolha estética, assim como já é, quando se faz mudo ou em preto&branco.

Scorsese experimenta o 3D de forma genial, explorando a profundidade de campo de várias maneiras, com elementos se aproximando ou se afastando em relação à câmera, com planos fixos e móveis, favorecendo a sensação de imersão nas cenas, além do bom uso da sobreposição de elementos cênicos, típico do 3D. Os enquadramentos parecem feitos de várias camadas!! Dá vontade de tocar os objetos e andar nos cenários!

A seqüência inicial do filme, quando a câmera desliza na estação e pára diante dos olhos de Hugo, escondidos por trás de um relógio, é maior prova de que o 3D não será passageiro, mas uma técnica que será explorada cada vez mais por mentes brilhantes do cinema. Este é um segundo grande presente, vivenciar uma nova forma de fazer filmes, quando tudo já parece tão desgastado. Scorsese soube explorar e pensar em 3D brilhantemente!


A direção de arte e uso da luz (contraste claro e escuro) reforça a tridimensionalidade e profundidade de campo do filme, mantendo um ar lúdico e fantástico, essencial em filmes infanto-juvenis, e especial quando se homenageia Méliès. Lembrei-me muito dos filmes do cineasta francês Jean-Pierre Jeunet (Delicatessen, O fabuloso destino de Amélie Poulain, Micmacs, etc), que também acredita que o cinema é o mundo da imaginação e dos sonhos.

Hugo (Asa Butterfield) é um jovem inventor, que aprendeu a consertar engrenagens e relógios, com os ofícios do seu pai relojoeiro. O último momento que passam juntos envolve a descoberta de um misterioso autômato, um boneco mecânico, que está quebrado e precisa de consertos. Antes do mistério ser desvendado, o pai de Hugo morre num incêndio e seu tio alcóolatra o leva para estação de trem, seu novo lar.

É neste ambiente, numa Paris de 1930 (ainda que os personagens falem inglês), que Hugo conhece o desanimado e inconformado Papa Georges (Ben Kingsley), dono de uma loja de brinquedos, e sua neta Isabelle (Chloe Moretz), devoradora de livros que nunca foi ao cinema.


Obcecado pelo conserto do autômato, Hugo rouba peças da loja de Mèliès, até ser pego e ter seus pertences retidos pelo velho rabugento. O caderno que carrega contém todas as informações sobre o boneco mecânico, o que deixa papa Georges transtornado. É neste clima de mistério juvenil, que a amizade de Isabelle e Hugo se fortalece e juntos descobrem quem Papa Georges realmente é, o grande pioneiro cineasta Georges Mélies.

Em certo momento do filme, Hugo conversa com Isabelle e acredita que tudo existe por uma razão, que qualquer artefato mecânico nunca contém peças extras, e por isso acredita que cada ser humano tem uma função no mundo, uma vocação, um objetivo. 'Ninguém é uma peça extra!'. Isabelle e Hugo não sabem ao certo qual sua função, mas acreditam que a de papa Georges precisa ser lembrada, pois ele parece tão quebrado quanto o boneco mecânico.

Aí reside a grande mensagem infanto-juvenil do filme: encontrar sua paixão, sua função e vocação. Sentir-se parte do mundo, essencial! Nunca alguém extra e descartável. E se observarmos o ciclo da natureza, tudo realmente cumpre uma função e se transforma! Ninguém é resto ou lixo! E se Méliès estava se sentindo assim, Hugo e Isabelle o ajudam a lembrar-se de quem foi, assim como Scorsese, através de seu filme ajuda-nos a lembrar de como o cinema surgiu e de como Méliès foi importante!!

 'Viagem à lua' de Georges Méliès (1902) 
Meu filme favorito do 'Primeiro Cinema'

O filme é emocionante 'fora de campo', pois me toca no meu lado mais sensível. Sou alguém que acredita nesse cinema da imaginação!!! Nada de discursos políticos ou posturas radicais, apenas entender que o cinema é aquilo que queremos que ele seja para nós, realizadores e espectadores. Ninguém é dono da verdade ou de uma definição específica, pois a experiência do cinema é única e passageira. Os filmes passam e se multiplicam, mas sensações e lembranças de cada experiência é que ficam!!! =)


Mais do que uma história infanto-juvenil, uma mensagem positiva, uma trama misteriosa e lúdica, uma belíssima direção de arte e experiência 3D, ou um ator não tão expressivo, e uma Paris estereotipada, o mais tocante foi ver trechos de filmes de Méliès restaurados em 3D. Foi emocionante ver 'A chegada do trem na estação' e as pessoas se jogando atrás das cadeiras. Ver o primeiro estúdio de cinema, feito de vidro para entrar toda luz possível, e os bastidores dos primeiros filmes do cinema, cenários, figurino, efeitos e peripécias!! "Aqui que inventamos os sonhos!" disse Méliès, o cineasta ilusionista que encantou o mundo com seus filmes fantásticos, pouco lembrados e valorizados! Talvez resida aí a importância de uma aula de cinema, que esclareça que os efeitos especiais começaram muito antes de Star Wars e afins! =)

Ver Hugo foi uma experiência tocante, emocionante e apaixonante, pois homenageia o começo de algo que se tornou minha grande paixão, como realizadora, espectadora e professora, pois mais do que fazer filmes, eu me realizo ensinando a fazer!! O cinema é de todos, e se eu puder ajudar que outros se expressem através dele, estarei fazendo cinema também! =)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

"As melhores coisas do mundo" de Laís Bodanzky 2010


Quais poderiam ser as melhores (e piores) coisas do mundo para um adolescente de 15 anos, cursando o ensino médio, como Mano (Francisco Miguez)?! Quais seriam suas preocupações, tristezas e alegrias?! Como seriam nossos jovens hoje, a partir da perspectiva deste filme?!

E quais poderiam ser as questões-chave para discutir a adolescência da classe média (e alta) hoje? Bullying, sexualidade e tecnologia, tudojuntoemisturado?!

Se utilizarmos o filme como ponto de partida para discutir a sexualidade na adolescência, já teríamos um início interessante, onde Mano e seus amigos pagam algumas garotas de programa para perder a virgindade (comum nessa faixa etária),  porém é aí que nosso protagonista se diferencia dos demais, recusando-se a ter a primeira vez com alguém que mal conhece, reservando-se para a amada (e piriguete) Valéria, sem deixar de impressionar os amigos, claro!

E enquanto 'escapa' da empreitada dos amigos, numa tentativa de fugir do 'assunto', o tema da sexualidade mais uma vez se depara diante de Mano, quando seus pais resolvem se separar, e mais tarde o pai assume sua homossexualidade diante dos dois filhos, Mano (caçula) e Pedro (Fiuk). Para um adolescente, um verdadeiro 'paradoxo', como diz Mano!! Quão difícil é ser filho de um pai que se assume 'gay' numa sociedade ainda tão preconceituosa?! Ou simplificando, quão difícil já é lidar com uma família que se desfaz pelas incompatibilidades da vida íntima?!

Talvez para ninguém seja fácil lidar com uma família que se desfaz...

E se no início nosso protagonista se apresenta como autor de constrangimentos alheios, como desenhar a garota 'lésbica' da escola e colar no mural, sem ressentimentos, agora é ele quem se depara com a situação inversa e precisa enfrentar um preconceito (seu e dos colegas) ainda maior, diante da situação com o pai.

Numa era em que a tecnologia não perdoa, e nós monitoramos a nós mesmos, ninguém escapa da fila de sofrer violência psicológica ou física de alguma forma, ao menor deslize. Se a brincadeira de desenhar um/uma colega parece inofensiva, quando é a garota amada quem tem fotos nuas divulgadas, ou o segredo da melhor amiga de beijar um professor é revelado, a piada perde a graça.

Laís Bodansky já havia nos apresentado a temática das drogas na década de 90 com "Bicho de sete cabeças", mas neste filme ela trouxe temas mais contemporâneos e urgentemente necessários para se discutir a educação hoje. Como lidar com as tecnologias atuais no contexto da escola, incutindo a responsabilidade e consciência reflexiva nos alunos?! Como trabalhar a cidadania e democracia, quando os próprios alunos julgam e condenam o tempo todo, as ações alheias, desinteressados com as conseqüências de seus atos?!

Ao mesmo tempo, é no espaço web, que muitos sentimentos ficam aflorados e podem criar uma ponte de aproximação entre pais e filhos, educadores e educandos. Pode se tornar um lugar para entender o adolescente e a fase que vivencia, quando muitas coisas não se revelam de outras formas, ainda que algumas expressões e escritas sejam muito subjetivas. Muitos blogs são usados para desabafos, e é justamente por isso, que Pedro, desiludido com o amor, tem a morte evitada, ao postar sobre seu suicídio.

Ou ainda, quando o blog é utilizado para agredir colegas e amigos, funcionando com um espaço de fofoca e discussão da vida alheia, ao invés de proibí-lo, quem sabe utilizá-lo de forma direcionada e educativa. Afinal, numa sociedade onde a fofoca e vida alheia geram um mercado pomposo, fica difícil conter os jovens dos mesmos impulsos. Mas se trabalhado desde a primeira idade, talvez no futuro seja um mercado falido! Quem sabe?!

Nem sempre aquilo que a escola apresenta para discutir é o que interessa os jovens, mas nem por isso eles não tenham capacidade de levantar suas próprias questões e defender suas causas mais urgentes, como pedir o retorno de um professor injustiçado, formar chapas para o grêmio da escola, levantando a bandeira da igualdade e diversidade num "Mundo Livre", e discursar contra o bullying, intensamente praticado há tempos, e aflorado com o anonimato do espaço web.

Sexualidade e bullying são temas recorrentes nesta obra de Bodanzky, e é partir de Mano que ela nos apresenta os desafios de lidar com o diferente ou de defender sua visão de mundo, além das desilusões diante dos relacionamentos afetivos, com o toque dramático típico da adolescência, envolvendo amores, paixões, família e/ou amizades.

Mas nesse 'mar' de problemas típicos e comuns, alguns personagens recusam-se a nadar com o 'cardume'. Mano talvez seja o 'peixe que nada sozinho', como diria o professor de física Afonso (Caio Blat). Nosso protagonista prefere 'nadar' conforme sua vontade, revelando-se um romântico moderninho, com direito às aulas de violão e beijos apaixonados na menina amada ou na melhor amiga, onde talvez vivencie seu primeiro amor realmente correspondido.

E é entre alegrias e tristezas que nos deparamos com atuações delicadas, histórias complexas, envoltos em temas polêmicos e necessários para discussão, sem deixar de sentir a nostalgia das festinhas de 15 anos e dos bons anos de estudantes da educação formal. Não é um filme denso e reflexivo, mas um ponto de partida, para discutir alguns de tantos problemas que se apresentam na educação dos dias de hoje!