segunda-feira, 19 de setembro de 2011

"As melhores coisas do mundo" de Laís Bodanzky 2010


Quais poderiam ser as melhores (e piores) coisas do mundo para um adolescente de 15 anos, cursando o ensino médio, como Mano (Francisco Miguez)?! Quais seriam suas preocupações, tristezas e alegrias?! Como seriam nossos jovens hoje, a partir da perspectiva deste filme?!

E quais poderiam ser as questões-chave para discutir a adolescência da classe média (e alta) hoje? Bullying, sexualidade e tecnologia, tudojuntoemisturado?!

Se utilizarmos o filme como ponto de partida para discutir a sexualidade na adolescência, já teríamos um início interessante, onde Mano e seus amigos pagam algumas garotas de programa para perder a virgindade (comum nessa faixa etária),  porém é aí que nosso protagonista se diferencia dos demais, recusando-se a ter a primeira vez com alguém que mal conhece, reservando-se para a amada (e piriguete) Valéria, sem deixar de impressionar os amigos, claro!

E enquanto 'escapa' da empreitada dos amigos, numa tentativa de fugir do 'assunto', o tema da sexualidade mais uma vez se depara diante de Mano, quando seus pais resolvem se separar, e mais tarde o pai assume sua homossexualidade diante dos dois filhos, Mano (caçula) e Pedro (Fiuk). Para um adolescente, um verdadeiro 'paradoxo', como diz Mano!! Quão difícil é ser filho de um pai que se assume 'gay' numa sociedade ainda tão preconceituosa?! Ou simplificando, quão difícil já é lidar com uma família que se desfaz pelas incompatibilidades da vida íntima?!

Talvez para ninguém seja fácil lidar com uma família que se desfaz...

E se no início nosso protagonista se apresenta como autor de constrangimentos alheios, como desenhar a garota 'lésbica' da escola e colar no mural, sem ressentimentos, agora é ele quem se depara com a situação inversa e precisa enfrentar um preconceito (seu e dos colegas) ainda maior, diante da situação com o pai.

Numa era em que a tecnologia não perdoa, e nós monitoramos a nós mesmos, ninguém escapa da fila de sofrer violência psicológica ou física de alguma forma, ao menor deslize. Se a brincadeira de desenhar um/uma colega parece inofensiva, quando é a garota amada quem tem fotos nuas divulgadas, ou o segredo da melhor amiga de beijar um professor é revelado, a piada perde a graça.

Laís Bodansky já havia nos apresentado a temática das drogas na década de 90 com "Bicho de sete cabeças", mas neste filme ela trouxe temas mais contemporâneos e urgentemente necessários para se discutir a educação hoje. Como lidar com as tecnologias atuais no contexto da escola, incutindo a responsabilidade e consciência reflexiva nos alunos?! Como trabalhar a cidadania e democracia, quando os próprios alunos julgam e condenam o tempo todo, as ações alheias, desinteressados com as conseqüências de seus atos?!

Ao mesmo tempo, é no espaço web, que muitos sentimentos ficam aflorados e podem criar uma ponte de aproximação entre pais e filhos, educadores e educandos. Pode se tornar um lugar para entender o adolescente e a fase que vivencia, quando muitas coisas não se revelam de outras formas, ainda que algumas expressões e escritas sejam muito subjetivas. Muitos blogs são usados para desabafos, e é justamente por isso, que Pedro, desiludido com o amor, tem a morte evitada, ao postar sobre seu suicídio.

Ou ainda, quando o blog é utilizado para agredir colegas e amigos, funcionando com um espaço de fofoca e discussão da vida alheia, ao invés de proibí-lo, quem sabe utilizá-lo de forma direcionada e educativa. Afinal, numa sociedade onde a fofoca e vida alheia geram um mercado pomposo, fica difícil conter os jovens dos mesmos impulsos. Mas se trabalhado desde a primeira idade, talvez no futuro seja um mercado falido! Quem sabe?!

Nem sempre aquilo que a escola apresenta para discutir é o que interessa os jovens, mas nem por isso eles não tenham capacidade de levantar suas próprias questões e defender suas causas mais urgentes, como pedir o retorno de um professor injustiçado, formar chapas para o grêmio da escola, levantando a bandeira da igualdade e diversidade num "Mundo Livre", e discursar contra o bullying, intensamente praticado há tempos, e aflorado com o anonimato do espaço web.

Sexualidade e bullying são temas recorrentes nesta obra de Bodanzky, e é partir de Mano que ela nos apresenta os desafios de lidar com o diferente ou de defender sua visão de mundo, além das desilusões diante dos relacionamentos afetivos, com o toque dramático típico da adolescência, envolvendo amores, paixões, família e/ou amizades.

Mas nesse 'mar' de problemas típicos e comuns, alguns personagens recusam-se a nadar com o 'cardume'. Mano talvez seja o 'peixe que nada sozinho', como diria o professor de física Afonso (Caio Blat). Nosso protagonista prefere 'nadar' conforme sua vontade, revelando-se um romântico moderninho, com direito às aulas de violão e beijos apaixonados na menina amada ou na melhor amiga, onde talvez vivencie seu primeiro amor realmente correspondido.

E é entre alegrias e tristezas que nos deparamos com atuações delicadas, histórias complexas, envoltos em temas polêmicos e necessários para discussão, sem deixar de sentir a nostalgia das festinhas de 15 anos e dos bons anos de estudantes da educação formal. Não é um filme denso e reflexivo, mas um ponto de partida, para discutir alguns de tantos problemas que se apresentam na educação dos dias de hoje!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário